Um dos mais respeitados profissionais de auditoria da América Latina esteve no Brasil em setembro para apresentar os resultados de um estudo minucioso realizado com experts internacionais que identificaram as setes teorias centrais para que se conheça, entenda e combata uma fraude, seja no âmbito corporativo ou governamental. O presidente da Fundação Latinoamericana de Auditores Internos, Jorge Badillo, esmiuçou a pesquisa a um público de mais de 700 auditores brasileiros que participavam da 37ª edição do Congresso Brasileiro de Auditoria Interna (Conbrai) e avaliou, em entrevista ao Jornal do Comércio, o patamar da auditoria brasileira e os desafios do setor. O executivo confirmou, ainda, o quadro positivo da carreira na América Latina, onde persiste a tendência de elevação na procura por auditores internos. “No caso do Brasil, acho que é um dos países inseridos no grupo dos que contam com um bom nível de qualidade em comparação aos demais. Há no País companhias gigantes, diversas multinacionais que exigem profissionalismo”, destacou Badillo.

JC Contabilidade – Quais são as setes teorias centrais para que se conheça, entenda e combata uma fraude (estudo apresentado no congresso)?

Jorge Badillo – Especialistas em assuntos antifraude identificaram e desenvolveram várias teorias que incidem sobre a causa raiz da fraude em organizações e na sociedade. No Conbrai 2016, apresentei a palestra Sete principais teorias para conhecer, entender e combater a fraude. É uma viagem à essência do problema. Esta palestra foi apresentada para compartilhar e debater com os auditores presentes, de maneira teórica e prática, os aspectos mais relevantes desse tema. Veja cada teoria no quadro abaixo.

Contabilidade – Você acredita que o Brasil está no mesmo patamar dos demais países da América Latina quando o assunto é qualidade da auditoria?

Badillo – A qualidade e nível de maturidade da auditoria interna é distinta dependendo do país e do setor de atividades de cada organização. Os setores com maiores estruturas regulatórias, como as entidades financeiras e as companhias abertas, presentes na Bolsa de Valores, têm maiores exigências de boa governança corporativa, com a necessidade de terem uma forte área de auditoria interna. Considerando a perspectiva de países na América Latina, de modo geral, ainda temos oportunidades para melhorar a qualidade da auditoria, sempre é possível avançar. No caso do Brasil, acho que é um dos países inseridos no grupo dos que contam com um bom nível de qualidade em comparação aos demais. Há no País companhias gigantes, diversas multinacionais, que exigem profissionalismo. Além disso, o Instituto dos Auditores Internos do Brasil (IAB) é um dos mais ativos e com melhor desempenho na região, sempre trabalhando para fortalecer e melhorar a profissão. É necessário lembrar que é fundamental manter um programa de qualidade interno contínuo e aplicar revisões externas de qualidade cada cinco anos para que se tenha uma auditoria interna fortalecida.

Contabilidade – E as empresas brasileiras têm buscado investir em auditoria de modo satisfatório?

Badillo – Algumas pesquisas recentes demostram que, no mundo, em geral, incluindo América Latina e Brasil, existe uma tendência de investimento na implementação e fortalecimento das atividades de auditoria nas empresas. Isso porque são cada vez exigentes as regulamentações, e porque tem crescido a consciência da importância de ter as chamadas “Três linhas de defesa” para uma efetiva gestão de riscos. Este modelo considera como primeira linha de defesa o controle interno desenhado e implementado pela gerência. A segunda trata das funções da gerência para que se tenha segurança de que a primeira linha funcionará bem, como, por exemplo, gestão de riscos, cumprimento às regulamentações e outras. E, como terceira linha, tem-se a auditoria interna, como uma função independente e objetiva, que avalia os processos nas organizações e procura identificar oportunidades de melhoria dos aspectos de controles internos, gestão de riscos e governança corporativa. Cada vez mais, o mundo corporativo reconhece o valor de auditoria interna nas organizações, vista com a missão de melhorar e proteger os seus valores.

Contabilidade – Qual o papel do auditor no enfrentamento à corrupção e às dificuldades econômicas encaradas por países do mundo todo?

Badillo – O papel do auditor interno é muito importante, mas não é o único na organização com a tarefa de combater a corrupção e a fraude. Essa luta tem que ser feita em conjunto com conselho administrativo, com o comitê de auditoria e com a direção da companhia. Todos têm de ter consciência de que é necessário monitorar o seu campo de ação a fim de ajudar a empresa a manter um ambiente elevado de valores e ética, com tolerância zero à fraude. A auditoria interna tem que dedicar parte de seus esforços na prevenção e detecção de situações de fraude como parte de suas revisões de processos periódicos.

AS SETE PRINCIPAIS TEORIAS PARA COMBATER A FRAUDE

1. Princípios da teoria de gestão de risco de fraude – Afirma que para uma boa gestão de risco de fraude é necessário considerar cinco princípios: avaliação de risco de fraude; técnicas de prevenção; técnicas de detecção; gestão de denúncias, investigações e ações corretivas.

2. Teoria do comportamento de pessoas – Indica que há pessoas sempre honestas ou sempre desonestas representam a minoria. Na realidade, a grande maioria das pessoas se comporta de acordo com as circunstâncias.

3. Teoria do triângulo de fraude – Menciona que em uma fraude existem três elementos: motivação, oportunidade e racionalização.

4. Teoria do nível organizacional e de perdas por fraude – Afirma que a fraude cometida por funcionários do alto escalão é menor em ocorrência, mas maiores em quantia de dinheiro desviado; já as fraudes cometidas por funcionários de níveis inferiores acontecem de maneira oposta.

5. Teoria dos dissuasores e motivadores de fraude.- Indica que além do efeito independente da existência de dissuasores e motivadores de fraude, é a própria ausência de um motivador que pode ser um real motivador.

6. Teoria de inteligência e contra-inteligência – Indica a importância de “obter e proteger a informação” do inimigo, ou seja, quem está cometendo ou planeja cometer a fraude.

7. Teoria da legislação oculta – Afirma que as regulações no país que afetam as empresas, muitas vezes, são deficiente não por casualidade e sim, pela intenção de alguém ou de algum grupo que pode vir a se beneficiar ilicitamente.

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Fonte: Jornal do Comércio